Oportunidades São Muitas. Porém, Não Caem Do Céu

April 28, 2006 by Cris Zimermann | 1 Comment
In Biodiversidade Brasil, DNA Brasil, Estilo de Vida Empreendedor, Idéias de Negócios, Natureza Brazil

ASN
Quando a oferta diminui e a demanda cresce, o preço sobe. Esta equação, que deve ser aplicada ao petróleo nos próximos 10 anos, poderá beneficiar o Brasil. Da mesma forma, a produção do eucalipto poderá ampliar a inclusão social por meio do trabalho no País, assim como a indústria nacional do aço pode vir a ser mais forte.

As oportunidades são muitas, porém há que se saber aproveitá-las, sem esperar que as soluções ‘caiam do céu’. É o que garante o economista francês Ignacy Sachs, diretor da École dês Hautes Études em Sciences Sociales, localizada em Paris. Ele alerta sobre ser agora o momento de construir sinergias entre empresas de grande e pequeno porte. Nesta entrevista do Sebrae, o professor apontou vícios que podem inverter a tendência de crescimento e atacou modelos prontos, com os quais definitivamente não concorda.

O senhor está desenvolvendo algum trabalho relacionado ao Brasil?
Tenho me dedicado aos estudos das condições e oportunidades no Brasil da inclusão social por meio do trabalho. A partir daí surgiram algumas linhas de ação que estou tentando viabilizar. Uma delas é construir sinergias entre grandes e pequenas empresas. Acredito que elas podem se ajudar tanto no fornecimento quanto na agregação de valor, criando redes de fornecedores ou de transformadores. O setor de aço inoxidável é um bom exemplo, pois pode dar lugar a uma rede de pequenas oficinas que usam a matéria-prima para fabricar diversos produtos. Outra possibilidade é o fomento de florestas familiares.

Como funcionaria uma parceria entre pequenos e grandes nesses moldes, por exemplo, no caso do contrato de fomento de florestas familiares?
Um bom contrato de fomento dá ao pequeno as condições razoáveis de garantir uma renda regular a partir de um certo número de hectares plantados de eucalipto. O produtor demora 6 anos para realizar a primeira extração, e vai cortando, de 6 em 6 anos, um sexto da área plantada. Então, ele entra no ritmo regular que proporciona a renda constante. Mas nós devemos tentar adensar o tecido socio-econômico ao redor dessa cultura de eucalipto, consorciando madeira com outras produções agrícolas e silviculturais. A responsabilidade das grandes empresas vai além do contrato de fomento. Cabe a elas ajudar a construir estratégias de desenvolvimento rural e integrado. Se conseguirmos mostrar isto, avançaremos numa linha importante, pois o País tem condições excepcionais para se destacar na transição da civilização do Petróleo. Tem a maior biodiversidade do mundo, é dono da ainda maior floresta tropical do planeta, possui climas e ecossistemas variados, muitos recursos hídricos, com exceção do polígono da seca, terras cultiváveis em abundância e pesquisas agronômica e biológica.

Como o Brasil pode lançar mão desses recursos para avançar?
Substituindo combustíveis à base de petróleo por biocombustíveis, como etanol e biodiesel. Depois, extraindo da biomassa tudo o que a ciência moderna permite. Biomassa é bioenergia, adubo orgânico, matéria-prima industrial etc. Então, estaremos voltando à energia solar, mas não será um retrocesso, porque não utilizaremos métodos primitivos de produção. Será o primeiro passo para uma nova civilização para a qual o Brasil tem condições excepcionais e para qual o trópico, muitas vezes apresentado como obstáculo, passa a ser uma vantagem.

Como a alta do preço do petróleo favorece esta visão?
Viabilizando energias secundárias e tornando mais receptivos a elas os que não queriam essas mudanças. Já que não fomos capazes de convencer por razões ecológicas, que são extremamente fortes, o alcançamos por impulso econômico. Tem também a questão ambiental, não aquela associada à árvore que arrancaram na rua ou a sujeira que jogaram no córrego, mas a fundamental, ou seja, estamos correndo rumo a um desastre ecológico de grandes proporções, provavelmente irreversíveis, ao continuarmos a usar em excesso a energia fóssil. Para não corrermos o risco de mudanças climáticas perigosas, deveríamos cortar em 60% as emissões de gases poluentes. Situação que fica ainda pior agora que o Protocolo de Kioto não será cumprido, porque os Estados Unidos se recusam a assiná-lo. Mesmo que fosse cumprido integralmente, estaríamos a um décimo do que é necessário…

Quais são as chances do Brasil neste cenário?
Todas. O problema é não esperar que as soluções caiam do céu e fazer mais. O problema das energias renováveis é uma das grandes oportunidades do Brasil substituir o petróleo internamente e exportar. Agora, esta chance comporta um perigo que é olhar somente o lado da sustentabilidade ecológica e da economicidade. As novas oportunidades devem ser vistas como um novo ciclo de desenvolvimento plural.

No aspecto social e, principalmente, dos pequenos empreendimentos e do trabalho, quais são os erros que não podem se repetir?
Deveríamos partir para projetos mais concretos para adensar as oportunidades. Me foi dito que aqui e agora as novas e grandes usinas estão comprando cana dos pequenos produtores, o que já é uma diferença em relação aos latifúndios. Em todo projeto aplica-se a lógica de raciocínio do fomento florestal, mas não apostar na monocultura. O homem que fornece a cana para a usina pode fazer outras coisas. O tema central do debate sobre o futuro rural do mundo está no conceito da pluriatividade do agricultor familiar e das suas famílias. Chega-se a uma série de oportunidades para terceirização e aproveitamento do subproduto. Se a gente é capaz de usar dessas oportunidades para criar empreendimentos de pequeno porte vamos ter um tecido socio-econômico bem diferente da imagem clássica da grande usina com as suas superfícies de cana. Mas isso não é fácil de conseguir.

Acredita que a produção de vegetais para biomassa - mamona e outros, como foi o caso da cana – pode ser feita pelo pequeno produtor?
Em relação ao biodiesel é muito mais fácil do que com o etanol. No último caso, estamos partindo de uma indústria bem constituída, economicamente forte e com um mercado mundial promissor. Lá a negociação vai ser mais difícil. Em relação à mamona, não há dificuldade nenhuma em iniciar a partir do pequeno produtor, porque ainda não é um negócio instalado. Mas, cuidado! Mamona é óleo, são rios de glicerina, de alto valor só em quantidades limitadas. O que se faz com glicerina? Eu não sei. Pode ser transformada? Como? Vamos começar a pensar em sistemas integrados de produção rural e isto requer uma mudança de mentalidade. Quando me perguntam se existe uma oportunidade? Eu respondo que é uma oportunidade de ouro. Se me perguntam, fácil? Eu digo que não! O mercado vai empurrar para soluções simplificadas e elas não são boas.

Pode ocorrer mais uma ‘corrida ao ouro’. Como impedir que isto aconteça?
Com políticas públicas, ou seja, eu venho de uma tradição de pensamento que não acredita no desenvolvimento espontâneo por meio dos jogos de livres regras do mercado. Se conseguirmos, com políticas públicas, uma situação que dá aos pequenos um lugar embaixo do sol, nós avançaremos. Caso contrário, poderemos ter riqueza, mas uma riqueza paga pelo acúmulo da pobreza e desigualdade. É por isso que eu falo da inclusão social pelo trabalho como um eixo absolutamente fundamental. E defendo esse tratamento desigual aos desiguais, por meio de políticas em favor dos mais fracos.

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