Carta Ao Chefe

March 29, 2006 by Cris Zimermann | 14 Comments
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Não gosto de comentar política pelo simples fato de acreditar que política não se comenta, se faz. Mas que fique bem claro: este é o meu País, o meu negócio e os sócios que não quero aqui. Sou brasileira e não sou trouxa!!!

Post original do Mosca Na Sopa, linkado pelo Marques

Extra! Extra! Extra!
QUE MARAVILHA O BOM JORNALISMO!
‘Jornalismo é a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.’ Cláudio Abramo (1923-1987)

‘Luiz Claudio Cunha faz parte dos seleto clube dos grandes jornalistas brasileiros. É um cara íntegro, correto, bom profissional, que já enfrentou mundos e fundos em nome do bom jornalismo. Conheci seu trabalho em 1978. Eu, muito jovem, entrando na Faculdade de Jornalismo em Porto Alegre. Ele, repórter da Revista Veja, investigando junto com o colega João Batista Scalco o sequestro por policiais brasileiros do casal de uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti.

Este caso virou ícone dos tempos perversos em que governos militares do Brasil, Uruguai, Argentina e demais países latino-americanos se associavam no crime e no castigo, sem limites ou barreiras. Cabia aos bons jornalistas defenderem o que restava da cidadania. Sobre este tema recomendo assistir (a quem conseguir uma das raras cópias existentes) ao belo e comovente documentário Cone Sul, dos jornalistas e cineastas João Guilherme Reis e Enio Staub, por quem privo enorme carinho e respeito.

A necessidade deste preâmbulo se argumenta em função da relevância profissional das pessoas que citei. Voltemos ao fato.

Luiz Claudio Cunha era até a última sexta-feira editor de Política da sucursal de Brasília da Revista IstoÉ. Fez um minucioso e eficiente trabalho de investigação sobre o rumoroso caso do caseiro Francenildo, envolvendo o ministro Palocci, seus assessores atuais e os deserdados de Ribeirão Preto.

O veterano repórter da IstoÉ terminou seu trabalho na noite da quinta-feira, dia 23, certo que tinha em mãos a história completa. Já sabia e havia transcrito com precisão no conteúdo de sua reportagem os principais movimentos e personagens do ‘caso Francenildo’. Citava claramente o ministro Palocci como provável mentor de toda operação, bem como informava que a cópia do extrato de Francenildo caíra nas mãos da imprensa distribuída pelo assessor de comunicação do ministro, jornalista Marcelo Netto.

Para surpresa de Luiz Cláudio Cunha, 55 anos de vida, 37 de jornalismo, o texto final, editado em São Paulo por Carlos José Marques, diretor-editorial da IstoÉ, não citava em nenhum momento o nome do ministro Antônio Palocci e omitiu completamente as informações repassadas sobre o ‘trabalho’ feito pelo assessor de imprensa Marcelo Netto, então suspeito de responsabilidade no crime (hoje confirmado).

Ao saber do teor do que seria publicado, Luiz Claudio Cunha, Editor de Política da IstoÉ em Brasília, recusou-se a assinar a matéria. E preparou um carta aberta a Carlos José Marques, seu ‘chefe’ em São Paulo, que decidira adaptar o texto do repórter a conveniências pessoais ou empresariais, o que ainda não está claro.

A carta de Cunha foi aberta porque estava endereçada ao mesmo tempo para Domingo Alzugaray, manda-chuvas da Editora Três, dona da IstoÉ, e Alberto Dines, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros, editor do excelente Observatório da Imprensa, o mais qualificado espaço de debates sobre o jornalismo na Internet. E fora dela também.

Eu, do alto dos meus 24 anos de múltiplas atividades em rádio, tv e jornal, já vi coisas muito bem escritas. Mas esta carta de Luiz Cláudio Cunha endereçada ao dono e ao editor-chefe da revista para a qual trabalhava é um documento histórico no jornalismo brasileiro. Poucas vezes uma única pessoa falou tantas verdades ao mesmo tempo.

Recomendo aos mestres que tanto lutam para educar seus jovens e dispersos alunos nas centenas de faculdades de Jornalismo que pipocam pelo Brasil, que leiam este texto em sala de aula. A carta é, também, muito adequada às redações de todo País, imersas em inexplicável catatonia corporativa travestida de sabe-se lá que projetos e ideais, quase todos personalistas e vazios.’

CARTA AO CHEFE
por Luiz Claudio Cunha

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Comments

  • JuNiOr on March 29th, 2006 at 7:01 pm

    Ai, ai, onde quer que eu vá o assunto é Palocci, Palocci… Enquanto isso o PSDB faz e acontece aqui na terra da garoa, enquanto todos só tem olhos pra Brasilia…

  • Vera on March 29th, 2006 at 9:10 pm

    Cris, faz tempo que eu larguei a Isto É, agora sei porque, faz um jornalismo de segunda. A carta do jornalista Luís Cláudio Cunha explicitou muito bem porque.
    Já não basta termos políticos sem vergonha, temos que aturar jornalistas mentirosos que inventam entrevistas e montam fotos sem dizer que o são. Fiquei decepcionada!!!

  • DO on March 30th, 2006 at 6:17 am

    Por estas e outras é que acabei não exercendo a profissão de jornalista,CRIS.
    Não saberia me submeter a este tipo de mediocridade.
    Beijo grande!

  • Sandrinha on March 30th, 2006 at 6:26 am

    Cris!!! what is BOB? im loosed in the time :-).
    Obrigada pela sua visita, menina do céu eu to me casando dia 13 de maio no Hawaii, to maluquinha, estou no Brasil este mes de abril, retornando ao Hawaii dia 28 de abril.
    Para mim falar de politica eh uma m*%$#, pq a base que tenho é a do nosso Brasil que sempre deicou a desejar, e ultimamente dá a impressoa que vao jogar o Brasil no vaso e dar descarga :-(. Que vergonha!
    Só pra entender vc está vivendo onde?
    Um super beijo, e nao vejo a hora de poder sentar, respirar e ler teu site de cabo a rabo, :-) :-)

  • Malkhut on March 30th, 2006 at 7:27 am

    matou a cobra e mostrou o pau!

  • Grande Líder da Silva on March 30th, 2006 at 8:00 am

    Que horror!

    A verdade nunca deveria atrapalhar o direito sagrado de ganhar muito dinheiro.

    A Companhia anuncia pouco na IstoÉ, mas a IstoERA pode ser interessante.

  • Bruno Kaneoya on March 30th, 2006 at 8:27 am

    Oi Cris

    uma vergonha e um grande golpe no jornalismo brasileiro.

    Gostei da qualidade da carta, mas não me surpreendo com o fato da mercantilização do jornalismo brasileiro.

    Com isso, a qualidade do jornalismo vai pro buraco levando consigo um pouco mais de dinheiro. Vale a pena? :(

    Beijos!

  • Blogue da Magui on March 30th, 2006 at 8:38 am

    Li tudo que vc mandou ler. A carta é realmente muito bem escrita.Minha opinião não tem nada de oráculo porque não sou jornalista. Mas o jornalismo continua o mesmo. Na época da ditadura fazia o jogo duplo como faz agora. Ficamos 20 anos na ditadura porque nem 1% da população resolveu implantar o comunismo no Brasil.Depois de 20 anos de apoio a esta corja que chegou ao poder amargamos o mau exemplo à geração futura no ápice da máxima ” o negócio é levar vantagem”. Talvez, se a humildade deixasse ver que a imprensa NÃO É o quarto poder como se arroga deixasse de bombardear enxurradas de ausações falsas que fazem as verdadeiras desaparecer.Para mim o editor não publicou porque não seria ( na sua avaliação e não discuto )o momento político mas o autor só pensou em sua vaidade.
    http://somagui.blogspot.com

  • Rafael on March 30th, 2006 at 8:48 am

    Ola Cris, Fico muito feliz por sua visita, é sempre um prazer fazer contato com pessoas tao simpáticas.
    PARABENS pelo seu trabalho… é realmente surpreendente.
    Abraços do Rafael Carretero

  • Clayton Cruz on March 30th, 2006 at 10:11 am

    O rumo do jornalismo brasileiro pode ser explicado, mas jamais deve ser aceito. Os grandes grupos de comunicação, estão em sua maioria na mão de políticos; isso explica o tendencionismo de determinadas matérias. Editar um texto, mudando seu curso para beneficiar este ou aquele é crime contra o direito autoral; certo estava Luiz Cláudio Cunha ao não assinar o material publicado. A vida de jornalista não é nem de longe o glamour que se prega nas faculdades de comunicação. Quando dei meus primeiros passos como repórter, foi-me dito que teria de engolir muitos sapos no decorrer de minha carreira, mas que jamais deveria permitir que juntos, fizessem um pântano. Dias atrás tive dissabores com uma chefe por conta de artigo publicado em meu blog. Ela não concordou com meu posicionamento contrário à determinada ação do prefeito, de quem é aliada política. Deixei claro que aquela era a minha visão enquanto cidadão e que meu trabalho como blogueiro não tem ligação alguma com a emissora em que trabalho. Chegaram a me ofertar determinada quantia em dinheiro para deixar de “paulear” o que penso estar errado. Deixei claro que não sou prostituto em minha profissão, e que se necessário fosse, deixaria a emissora ou em último caso, encerraria o blog. Felizmente, ainda temos jornalistas guerreiros como o Claudio que fazem valer seguir na profissão.[]

  • Milton toshiba on March 30th, 2006 at 10:24 am

    Cris, desculpe , mas não tenho tido tempo de visitar meus amigos preferidos. pata falar a verdade, estpou com saudades daquele sorriso que tinha antes no seu perfil.
    Beijos Mil

  • Chris Pessoa on March 30th, 2006 at 10:58 am

    Eu concordo… política não se descute. :-)))
    Mas para falar a verdade eu já estou é cansada deste assunto. Eu não aguento mais ouvir as palavras Palocci e Matoso.

  • MOITA on March 30th, 2006 at 12:55 pm

    Cris

    Não me canso de dizer que os integrantes do PT já podem ser emquadrados em todos os artigos do código penal e do codigo eleitoral brasileiros.

    beijos

  • claudio antunes boucinha on April 28th, 2006 at 11:12 pm

    Émile Zola, quando publicou “J’accuse”, causou um impacto, em poucas horas. É um bom exemplo dos efeitos de um texto dentro de um contexto (desculpem o trocadilho, acho que não fui feliz). A maioria das pessoas desconhece o poder do verbo. Dentro de tantas banalidades e banalizações, tipos de massas e classificações sociais, a palavra que vale é a que é construída socialmente e não aquela palavra produzida por pretensos conhecedores da linguagem, de ilusões de ótica, de biólogos que falam de crianças, a partir de observações de animais. Qual a sociedade que estamos construíndo? Não está em jogo somente o jornalismo. Está em jogo muita coisa. Pensemos nisso. Luiz Claudio Cunha pensou.

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