foto Anderson Oliveira
Como os jovens enfrentam os desafios de um mundo em transformação, que exige cada vez mais educação e espÃrito empreendedor
Falta de experiência, indecisão vocacional, baixa escolaridade ou pouca oportunidade. São desafios que todos os jovens brasileiros podem enfrentar em seus primeiros passos no mercado de trabalho.
O desemprego e o subemprego desprezam o talento de milhões de jovens brasileiros, mas nenhum, rico, pobre ou remediado, quer ficar onde está. Vamos ver aqui como eles buscam a profissionalização e driblam os obstáculos para ingressar em um mercado cada vez mais exigente.

Alguns têm a felicidade de encontrar logo o caminho, como o carioca Edgar Nogueira. Aos 13 anos ele ganhou um computador e inventou um site de busca, o aonde.com. Hoje, empresário de 21 anos, recém-formado em Administração (e a caminho do mestrado), segue feliz e resolvido com sua empresa e mantém um segundo site, o namoro.com, de relacionamentos.
Já a paulista Débora Tatiana Vilhena, 19 anos, abriu mão de alguns sonhos, para preservar outros. Nascida numa famÃlia pobre, empregou-se como empacotadora de supermercado. “Precisava trabalhar logoâ€?, assume ela, que abdicou do sonho da universidade. “Particular é muito cara; pública, muito difÃcil. A luta pela faculdade gratuita é muito injustaâ€?, constata.
Morador da periferia de Natal, Neilton de Freitas, 21 anos, aprendeu com a ONG Natal Voluntários, que o caminho é difÃcil, mas ninguém deve se contentar com menos do que deseja. Ele participa de um dos projetos mantidos pela entidade, o Asa Branca, terminando o curso de garçom. “Busquei o setor de turismo, forte na cidadeâ€?, conta ele que, antes, tentou o mais brasileiro dos sonhos: ser jogador de futebol. Sua meta é ser Intérprete de Inglês. “Sou jovem, tenho todas as chances. Com investimento, os jovens conseguem se destacarâ€?, acredita.
E a experiência?
A mineira Angelina de Lima Ramos, 22 anos, passou um ano dando com a cara na porta antes de arrumar um emprego por causa do currÃculo vazio de experiências. Há quatro anos ela é vendedora de uma loja de iluminação em Juiz de Fora e concentra suas crÃticas nos obstáculos do mercado. “Veja o mito da experiência: como alguém com 16, 17 anos pode ser experiente se ninguém dá uma oportunidade? Uma tremenda injustiçaâ€?, denuncia.
“O Brasil tem poucos com muita chance e muitos sem nenhuma�, avalia o carioca William Sebastião dos Santos Oliveira, 22 anos, que só pôde estudar até a 6a série, porque precisou trabalhar para ajudar em casa. Agora, vai encontrando sua vocação. Descobriu a Incubadora Afro-Brasileira, que promove o empreendedorismo entre jovens afrodescendentes. Lá, desenvolveu sua empresa de grafismo e há alguns meses vive da ilustração de camisetas e faixas.
Jovem apicultor do Extremo Sul do paÃs, o gaúcho Francis Leal Batista, 19 anos, cursa Engenharia AgrÃcola graças a uma bolsa do Programa Universidade para Todos, do governo federal. Antes, ele participou do Jovem Apicultor, programa de capacitação da Universidade de Santa Cruz do Sul, que o motivou a desenvolver sua própria criação de abelhas. “Queria ser biólogo, mas não teria condições de pagar a faculdade. Aqui, encontrei minha vocação e tenho muito mais mercadoâ€?, comemora.
DesperdÃcio social
Com pouco estudo e sem experiência, a cearense A. G. F, de 19 anos, sente na pele as dificuldades de ingressar no mercado de trabalho. “Fiz até a 7a série e depois que engravidei não deu para continuar nos estudos. Quando meu filho nasceu, não tinha com quem deixá-lo e por isso não procurei emprego�, diz ela, que conta com a solidariedade da avó para sobreviver.
Por muito pouco a baiana Luciana Xavier, de 21 anos, não engrossou o triste exército de desalentados. Dos 2 aos 14 anos, ela viveu nas ruas de Salvador, pedindo esmola, dormindo ao relento. Sua vida só tomou outro rumo quando ingressou no Projeto Axé, um dos mais bem-sucedidos programas brasileiros de atendimento e educação de crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social. “O Axé mudou os rumos da minha existência. Percebi potencialidades em mim mesma que não conhecia. Isso me ajudou a descobrir o que gostava de fazer. Terminei o curso de moda e virei estilista. Ganhei uma bolsa para estudar numa faculdade de moda de Florença, na Itália, e agora quero ser uma profissional revolucionária�, conta Luciana.
Em São Paulo, o projeto Cidade Escola Aprendiz também vem trabalhando com sucesso em prol do resgate da cidadania e da profissionalização de jovens das camadas populares. Participante da primeira turma do Aprendiz, a paulistana Mônica Alves, de 23 anos, formou-se em arquitetura e trabalha na restauração de prédios no centro de São Paulo e como produtora de eventos do Café Aprendiz, um dos braços do projeto. “O Aprendiz me fez acreditar que eu poderia conseguir fazer o que gostava. O problema de alunos de escolas públicas, como era o meu caso, é não acreditar e não saber como concretizar os seus sonhos�, afirma.
DifÃcil acesso
Um segmento da juventude que enfrenta dificuldades ainda mais especÃficas para furar a barreira do desemprego é o dos portadores de necessidades especiais. Embora a legislação brasileira exija que empresas a partir de determinado porte reservem a eles pelo menos 5% de suas vagas, a situação é complexa. “O portador tem dificuldade para entrar no mercado não apenas por causa de suas limitações, mas também pelo preconceito e pelas deficiências na capacitação e atendimento a essas pessoasâ€?, diz Roberto dos Santos Pinto, gerente de Trabalho do Instituto Brasileiro de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (IBDD), do Rio de Janeiro.
A carioca e estudante de Direito Joana de Montenegro Roquete, 22 anos, é uma beneficiada pelo programa do IBDD. Portadora de uma doença degenerativa que a tornou dependente de uma cadeira de rodas, ela trabalha, há um ano e meio, na consultoria jurÃdica da companhia Furnas Centrais Elétricas, como empregada terceirizada. “A lei que obriga as empresas a contratarem deficientes facilitou minha entrada no mercado, mas a maior dificuldade do portador de deficiência não é obter uma vaga e, sim, boa qualificação, principalmente pela dificuldade de acesso fÃsico à s instituições de ensinoâ€?, diz Joana.
Subempregados
O subemprego é outra faceta do drama enfrentado por muitos jovens, principalmente aqueles de baixa renda e escolaridade deficiente. Eles transitam por uma infinidade de empregos, em funções mÃnimas e corriqueiras. O mineiro A. L., de 16 anos, de Ipatinga, é um exemplo. Há um ano, largou a escola e passou a se dedicar integralmente ao emprego em um mercadinho do bairro. “É muito cansativo trabalhar o dia todo e ainda estudar à noiteâ€?, diz. E o emprego no mercadinho, sem carteira assinada, não é o primeiro. Ele começou aos 14 anos numa oficina mecânica, já foi ajudante de pedreiro e balconista em um bar perto de casa. “Decidi trabalhar porque meus pais não tinham condições de me dar coisas que eu queria. Desejava ter meu próprio dinheiro e agora ganho um salário mÃnimo. Estou satisfeito com o que faço, mas sei que a situação não está fácil. Lá no mercado, chega muita gente procurando trabalho. Por isso, eu tento fazer tudo certinho, senão vem outro e toma minha vagaâ€?, constata o garoto.
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